Crítica: “Cheias de Charme” é a melhor novela das sete desde “Da Cor do Pecado”

Post publicado originalmente em 24/05/2012.

O título desta postagem, quando confrontado com a que escrevemos sobre a Avenida Brasil, outro acerto da atual safra de novelas da Globo, mostra justamente o quão bem servidos estamos. A Globo vive uma fase excelente em suas produções. Das que estão no ar, apenas Amor, Eterno Amor fica deslocada (apenas porque não é tão boa quanto as demais). O motivo desse post, que fez o blog ressurgir das cinzas (depois eu explico melhor), é a novela das 19h: Cheias de Charme.

É a única coisa que assisto na televisão ultimamente.

Começo dizendo que mordi a língua. Imaginei que a novela seria uma patacoada — e é. Mas, ao contrário do que eu pensei, Cheias de Charme é uma divertidíssima patacoada. A trama de Filipe Miguez e Izabel de Oliveira, autores iniciantes, é a conjugação de uma série de acertos, como há muito não se via.

Há muito mesmo: desde Da Cor do Pecado (2004) o horário das sete não via um novela tão boa. Nesse ínterim tivemos Cobras e Lagartos. Eu sei, ambas são de João Emanuel Carneiro (hoje catapultado para a faixa nobre), e quem me conhece sabe o quanto eu admiro esse autor. Para mim, Cobras e Lagartos marcou por um motivo: a socialite Milu, vivida por Marília Pêra. E não foi só para mim que ela marcou — a própria atriz, em depoimento para o Globo Repórter, declarou ter um especial carinho pela personagem. O resto de Cobras e Lagartos (repito, para mim) era escada para a Milu. E felizmente, eram escadas muito eficientes.

Da Cor do Pecado, novela de estreia de João Emanuel Carneiro, me marcou demais. Assumo que realmente, não é a melhor novela de todos os tempos, mas de longe é a minha preferida.

Chegamos em Cheias de Charme. O que a faz tão boa? O texto cheio de frescor dos autores é um bom começo. O elenco bem escalado, a direção no ponto certo (exagerada como tem que ser), além da trilha sonora, que é um assunto à parte.

Tanto Da Cor do Pecado quanto Cheias de Charme têm a direção de núcleo assinada por Denise Saraceni, que novamente embarcou na criatividade de autores desconhecidos, e nos traz resultados incríveis. E além disso, as duas novelas também compartilham a protagonista: Taís Araújo (que desta vez não reina sozinha, mas chegaremos lá). Taís, que costumava ser chamada de “o pé de coelho” de Jão Emanuel, pela primeira vez fica ausente de uma novela sua. Diz a lenda que ela abriu mão de um papel de certo destaque em Avenida Brasil, para estrelar o folhetim de Felipe e Isabela. Uma manobra arriscada. E voltando aos “pontos coincidentes”, Aracy Balananian e Sergio Malheiros voltam a contracenar juntos após quase 10 anos, em papéis completamente diferentes.

Sobre as protagonistas, esse foi o ponto que mais me gerou dúvidas em Cheias de Charme. Se você me perguntar, sim, as três são boas atrizes. Mas sinceramente, ou como dizem na ABL, de boa, negão, o que Taís Araújo, Leandra Leal e Isabelle Drummond têm a ver uma com a outra? No auge de minhas limitações mentais, eu não conseguia imaginar como as três atrizes, de tão diferentes que são, conseguiriam estrelar juntas uma novela, e o pior: cantando.

Bem, pelo menos quanto ao “cantando” venceu o meu preconceito. As três não cantam nada. Contudo, não é nada que vá prejudicar o bom andamento da vida. Aliás, aqui a Globo demonstra sua hegemonia: a veia musical de Cheias de Charme supera, em todos os sentidos, a versão brasileira de Rebelde, da Record.

Praticamente unanimidade é a vilã cômica (finalmente! Uma VILÃ CÔMICA no sentido mais literal do termo) Chayenne, a brabuleta, vivida por Claudia Abreu. De uma forma brilhante, diga-se. Chayenne é a vilã perfeita para essa coisa amorfa que é o horário das sete. Não há nada muito pesado, nada muito carregado. Chayenne jamais apontará uma arma para ninguém. Tudo nela beira a comicidade, mas nem por isso ela deixa de ser vilã. É algo que tem sido tentado pelos autores há anos. Um fracasso atrás do outro. Não chegavam nem perto.

A interação de Cheias de Charme com a internet também merece elogios. O lançamento do clipe das empreguetes, com a divulgação do link após o tão aguardado capítulo em que o vídeo veio à tona, obedeceu a uma genial estratégia de marketing. O resultado: mais de 2 milhões de acessos em dois dias.

Por fim, que fique registrado: Socorro (Titina Medeiros), mesmo sendo toda “um tom acima”, é outro bom motivo pra se assistir à trama.

Esta postagem não chega nem perto de esgotar todas as qualidades dessa novela, mas fica o registro. Meu Deus. Que novela boa. É tão bom poder presenciar isso.

Na sequência de Cheias de Charme, para arruinar tudo, vem aí Carlos Lombardi com mais uma de suas novelas sem pé nem cabeça. A próxima vai ser sobre viagem no tempo. Uhu.

Pelo menos com esse eu sei que não tem risco de eu morder a língua.

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